A ecologia interior – conviver com os conflitos

Ecologia é uma ciência que estuda os seres vivos e as suas interações com o meio ambiente onde vivem. É uma palavra que deriva do grego, onde “oikos” significa casa e “logos” significa estudo.

O conceito de ecologia tem sido aplicado fora do contexto biológico, e a PNL dá-lhe o  significado mais abrangente de estudo das consequências. Outra concepção aponta para a gestão dos equilíbrios entre interesses em conflito dentro de um sistema.

Onde há terreno mais propício a conflitos do que a nossa mente? Haverá, então, uma ecologia interior, crucial para o nosso bem-estar como indivíduos e como sociedade?

Vamos perceber melhor com um exemplo. Francisco tem 33 anos e sente que está num cruzamento da sua vida. Tem uma família, mulher e um filho, um trabalho absorvente e uma carreira- é gestor intermédio numa multinacional. Mas a satisfação que costumava sentir com a sua vida confortável tem vindo a diminuir e irrita-se quando os amigos lhe dizem que ele é um felizardo sortudo.

A mulher, Isabel, sugere-lhe que tire mais tempo para ele próprio, já que a vida não se esgota na carreira profissional e queixa-se serenamente de que a sua forma de estar em família se tem fechado. Sugere que, talvez, ele precise de se encontrar a si próprio.

Francisco ouve uma voz dentro de si a dizer-lhe que Isabel tem razão mas outra voz mais sonora lhe grita que tem de tomar mais controlo sobre o que lhe acontece e o que precisa é de progredir na carreira. A vida de um homem não é nada sem desafios a vencer e ele tem é andado muito acomodado, precisa de arrebitar e mostrar ao mundo a fibra de que é feito. Afinal que treta é essa de se encontrar a si próprio? Conversa de fracos…

Uma promoção – é isso que ele precisa. Merece um cargo de direcção, talvez tenha de passar uma temporada no estrangeiro. Eis um objectivo pelo qual vale a pena lutar, pensa Francisco.

Ainda assim, a vozinha interior que lhe dizia que Isabel tinha razão não se cala e sussurra que ele não está aprestar atenção ao preço que terá de pagar para atingir esse objectivo.

A sua voz crítica acorda, nestas ocasiões, e mina-lhe a confiança dizendo-lhe que ele não tem a garra dos vencedores, afinal não era o seu pai que lhe dizia que era um perdedor quando chegava a casa com notas de suficiente e bom quando os melhores tinham excelente?

Francisco detesta, acima de tudo, o sentimento de perda que sofre quando se recorda da criança que foi, sempre a ser posta à prova, sempre inadequada, comparada com primos, com outras crianças mais fortes, mais velozes, mais inteligentes. Bah, eles verão quando ele for promovido e se tornar num dos directores mais jovens da sua empresa.

A sua mulher, Isabel, disse-lhe que o apoia no que for preciso mas pede-lhe para ler um artigo sobre a boa formulação de objectivos, segundo a PNL.

O que lhe prende mais a atenção é o critério da ecologia. Para aumentar as hipóteses de atingir o objectivo, ele deve atender às suas consequências. Para si, para as pessoas que lhe são importantes e para os sistemas a que pertence. Para isso, deve fazer as seguintes perguntas:

  • O que ganha e o que deixa de ganhar se atingir o objectivo? O que pode perder se o atingir?
  • O que ganha e o que deixa de ganhar se não atingir o objectivo. O que pode perder se não o atingir?

Confuso, Francisco deixa que o seu controlador interior, que associa à imagem do pai, tome ainda mais poder e fica a trabalhar até mais tarde, trazendo dossiers para estudar durante o fim-de-semana. Fecha-se e irrita-se cada vez mais com o filho, que lhe pede a atenção que não pode retirar do tempo que dedica a trabalhar.

A relação com Isabel corre perigo, mas a voz do conciliador dentro de si leva-o, por fim, a aceitar a proposta da mulher para consultarem um coach, especialista em PNL.

O que se passa aqui? Aparentemente, o Francisco não está a ser capaz de perspectivar claramente o que quer fazer porque:

  • Não é claro que o objectivo tenha um valor em si mesmo ou se é simplesmente útil para criar um foco de atenção, no meio da grande confusão que vive.
  • As respostas às perguntas sobre a ecologia do objectivo ainda não foram balanceadas.
  • As vozes que Francisco ‘ouve’ dentro de si representam o conflito interior. As tentativas de abafar qualquer dessas vozes, particularmente a da criança vulnerável, não respeitam a ecologia interior e só contribuem para aumentar a pressão, o stress e o sofrimento.

Após duas sessões, Francisco já tinha ideias mais claras. O coach ajudou-o a verbalizar as vozes interiores em conflito e, no processo, ganhou uma nova consciência do seu ego atento, como alternativa ao ego dominador.

Francisco decidiu adiar por alguns meses a sua candidatura à promoção, que o levaria a ter viver no estrangeiro durante dois anos. Vai aproveitar este tempo para aprofundar o trabalho de auto conhecimento. Agora, ele sabe que a harmonia dentro de si e dentro da família são um objectivo maior que qualquer outro. E quando, finalmente, se decidir a investir mais na sua carreira, terá bases mais sólidas para ser um profissional completo e um ser humano íntegro e integral nas suas múltiplas facetas, incluindo a de respeito e satisfação pela sua vida familiar e relacional.

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